"O estilo nem por sombra corresponde a um simples culto da forma, mas, muito longe disso, a uma particular concepção da arte e, mais em geral, a uma particular concepção da vida." (Leon Tolstoi)

28 de abr de 2010

Segundo Dia

O segundo dia de desfiles do Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza (CE), começou com a inspiração étnica da marca recifense Madame Surtô, passou pelos bordados e junções de tecidos coloridos da Piorski e terminou, muitíssimo bem, com o desfile de Lindebergue Fernandes. O evento chama a atenção pela moda autoral, o que pôde ser bem percebido nesta segunda-feira (26). De mãos dadas, criatividade e trabalhos manuais levaram a belos resultados na passarela.
A Madame Surtô misturou cores, tecidos, bordados e estampas. Entre os pontos altos, os colares e o uso bem-sucedido do artesanato, que aparece em rendas e macramês pontuais, e dos retalhos. "Prezo muito pelo manual e pelo artesanal. Também gosto de usar tecidos e estamparias de tecidos sobre tecidos", diz a estilista da marca, Thaís Asfora. Para a coleção, ela esteve em contato com a comunidade do Poço de Paula, em Recife (PE), promovendo treinamentos para ensinar moradores a trabalhar com os pedaços de pano.
Francisco Matias, o Wilson Ranieri do Ceará, apresentou o segundo desfile da noite. Sua grande paixão, assim como a do colega paulista, são os moulages. Na coleção Pequenos Surtos, há laços, tecidos fluidos, tressê de cetim, muitos volumes, calça afunilada para homens, transparências e ombros destacados por crochês, dos quais pendem fios muito longos, que passam do joelho. Destaque para o meia-pata altíssimo com tachas e para a bolsa-cinto-suspensório. Mas não precisava das cabeças cobertas por toucas com franjas de crochê. Foi um pouco demais.
Da internet para a passarela
Para assistir ao desfile da Piorski, uma multidão ocupou a rampa de acesso à Sala das Marés, a segunda maior do Centro de Convenções de Fortaleza, formando uma fila-caracol. O burburinho foi grande, mas não por causa de nenhum famoso: as pessoas queriam ver as roupas mesmo. Para a coleção, a estilista Adriana Piorski tomou como ponto de partida a história de Pinóquio, passando por outras fábulas e pelos clássicos O Lago dos Cisnes e O Quebra-Nozes. A inspiração é traduzida em peças românticas e lúdicas, com mangas-princesa, babados, laços, cinturas marcadas, botões militares, sobreposições de tule, quadris volumosos, organza, chiffon e tricolines estampados com motivos girlie, bem como xadrezes, listrados e pois. Os olhos são atraídos para bem executados patchworks e misturas de tecidos - que vão agradar jovens de 18 a 25 anos, público-alvo da marca -, mas também para a etiqueta usada nas peças, que chega a prejudicar a delicadeza de alguns looks, por ser um pouco grande e preta, causando contraste com tons clarinhos.
Adriana é exemplo de que a internet pode ajudar a impulsionar a carreira de um novo estilista. Há sete anos, ela começou a participar de feiras e bazares com bolsas de tecido. Mas foi depois de estudar Moda que ela começou a pensar mais na marca e, em 2006, resolveu montar um Fotolog para divulgar o trabalho. Logo as bolsas de tecido deram espaço a camisetas e vestidos bordados. Hoje há uma loja da Piorski em Fortaleza, mas a internet é o canal de compras de 90% das 400 peças vendidas por mês, com a maioria dos clientes no Recife, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Mundo cigano
A segunda noite de desfiles foi fechada com maestria por Lindebergue Fernandes. O estilista, autodidata, se inspirou nos ciganos contemporâneos para sua oitava coleção apresentada no Dragão Fashion Brasil. Lindebergue primou pelos detalhes, tão estimados por esse povo, que adora brilhos, correntes e medalhas. Penduricalhos de materiais reaproveitados, como partes de relógio e correia de bicicleta, ressaltam as roupas, feitas de materiais como jeans, moletom do lado avesso e tecidos de cortina e estofados. Para dar efeito de sujo, o designer manchou jeans e pintou outros tecidos com pistola. Tênis também foram manchados e customizados com saltos de madeira.
Apesar de tantos detalhes, os 32 looks, masculinos e femininos, foram produzidos em apenas 25 dias. A moda apresenda por Lindebergue - que, fora da passarela, vive do trabalho de assessoria a três marcas cearenses - é bastante conceitual. Para chegar às araras do coletivo de que participa em Fortaleza, as roupas serão adaptadas. "Vou fazer uma golinha bordada e peças mais discretas, em tecidos mais leves", conta. Mas sem frear a criatividade.














Lindebergue Fernandes

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